Steven Lawson contou que certa vez Donald Gray, pastor americano, ao pregar em sua comunidade, falou acerca da estratégia mais diabólica que Satanás poderia maquinar contra a igreja nos anos porvir … Para o espanto de muitos, o pastor disse que todos tribunais da cidade seriam fechados, as prostitutas não andariam mais pelas ruas, a pornografia não ficaria mais disponível. As ruas da cidade seriam limpas, e todos os bairros da cidade seriam cheios de cidadãos que obedeceriam às leis. Todo chingamento e difamação desapareceriam. E todas as crianças diriam respeitosamente: “Sim, Senhor, e não, mãe. Todas as igrejas da cidade ficariam superlotadas. Não haveria um banco de igreja que caberia mais uma pessoa sequer.1
Talvez você pergunte: o que há de errado nisso? Em seguida, o pastor Donald deu o golpe final … “Ele disse que o perigo mais letal e mais diabólico seria que, em cada uma destas igrejas cheias em sua capacidade máxima, Jesus Cristo jamais seria pregado. Nestes púlpitos, haveria muita palestra religiosa, mas nada seria dito a respeito da autoridade suprema e da obra salvadora de Cristo na cruz. Se falaria sobre a moralidade, mas nada de Cristo. Haveria histórias inspiradoras, mas nenhum Cristo. Haveria os sinais externos do cristianismo, mas nenhuma realidade interna de Cristo. A estratégia mais diabólica de Satanás seria as igrejas estarem superlotadas de pessoas, mas sem ouvirem a proclamação de Cristo e ele crucificado. Com este silêncio mortal, as pessoas nunca aprenderiam a respeito de Cristo, e assim elas jamais poderiam conhecê-lo e segui-lo”.
Com esta introdução me apraz dizer que este artigo tem duas partes. Na primeira parte, eu abordarei sobre a necessidade que temos de apresentarmos sermões cristocêntricos, e na segunda estaremos focados em discorrer sobre os resultados que uma pregação cristocêntrica gera na vida do povo de Deus.
O que vem a ser uma pregação cristocêntrica? Em termos simples podemos entendê-la como aquela que procura exaltar a Cristo. De forma mais elaborada, a pregação cristocêntrica é aquela que tem em conta que Cristo é o àpice da revelação de Deus e conecta toda a Escritura à luz de sua vida, morte e ressurreição. Em suma, pregação Cristocêntrica é aquela que prega a Cristo independentemente do texto bíblico em causa. Sidney Greidanus diz que “pregar a Cristo é proclamar alguma faceta da pessoa, da obra ou do ensino de Jesus de Nazaré, para que as pessoas possam crer nele, confiar nele, amá-lo e obedecê-lo”.2
A necessidade de pregação cristocêntrica
O evangelista Lucas em seu capítulo 24, narra sobre o encontro de Jesus com dois discípulos que se dirigiam para a cidade de Emaús. Jesus depois de ter aparecido aos dois discípulos e ouvido a narração dos acontecimentos por parte de Cleopas, o Senhor concluiu que eles eram “néscios”, eram lentos para entenderem o que os profetas haviam anunciado de facto. Uma das grandes causas para o fraco entendimento dos discípulos foi porque eles tinham limitado o reinado de Jesus à esfera física, tinham esquecido que a morte seria o caminho que o Messias deveria trilhar para cumprir as Escrituras, esqueceram que ele primeiro deveria sofrer e só depois estabelecer o seu reino. Foi a partir dali que “começando por Moisés expunha-lhes o que a seu respeito constava em toda escritura” (Lc 24.27).
É sabido por todos que Jesus é a mensagem central da Bíblia. Cada livro, cada capítulo apontam de alguma forma para Cristo:
Jo 5.39: “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna; e são elas que dão testemunho de mim”.
Lc 24.44: “Depois lhe disse: São estas as palavras que vos falei, estando ainda convosco, que importava que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”.
Não podemos estar esquecidos de que quando Jesus se refere à Escritura, ele está se referindo especificamente ao Antigo Testamento. Gordon Fee em certo momento asseverou que “Depois de Apocalipse e Daniel que são livros apocalípticos, o AT é a parte da Bíblia que mais sofre abusos na interpretação”.3 A maior parte dos sermões pregados no AT visam tirar lições de moral e muitas vezes sem nos darmos conta, acabamos por criar uma geração de crentes que não entendem a obra de Cristo, a exemplo dos dois discípulos na estrada para Emaús. Precisamos urgentemente examinar a Escritura, começando por Moisés, assim como Cristo fez. Desta forma, ao pregarmos em Génesis: não podemos falar do relato da queda de Adão sem esquecer que Jesus é o novo Adão. Que onde o primeiro Adão falhou, o segundo Adão venceu. Ao pregarmos em Êxodo: não podemos olhar simplesmente para as dificuldades, e provações que os israelitas tiveram no deserto e mostrar que precisamos ter fé quando passarmos pelo deserto em nossas vidas; é preciso mostrar que Jesus venceu o deserto, quando foi tentado pelo diabo da mesma forma que os israelitas. Ao pregarmos em Levítico: a morte de animais, a expiação diária que os sacerdotes faziam, tudo apontava para Cristo. Ao narrarmos o embate entre Davi e Golias: o grande ponto não está em saber qual é o teu gigante; ou se tiveres fé em Deus conseguirás vencê-lo; sem Cristo este texto não passa de autoajuda. Se colocarmos Cristo precisaremos mostrar que ele venceu os grandes gigantes do pecado e da morte e sua vitória foi imputada a cada um de nós. É importante ainda considerarmos que a tarefa de tornar nossos sermões cristocêntricos não se limita a pregações feitas no Antigo Testamento, pois é bem possível pregar um sermão nos evangelhos, e ainda assim nossa pregação não ser cristocêntrica.
Charles Spurgeon conta que um jovem tinha pregado na presença de um respeitável teólogo, e ao final foi até o velho ministro e disse: “o que você achou do meu sermão?” foi um sermão muito pobre, respondeu. Pobre? Perguntou o jovem, será que não estava bem organizado, falhei na explanação? Não, tudo estava bem. O que faltou então, porque consideras um sermão pobre? Respondeu o mais velho: não havia Cristo nele. O jovem responde: mas Cristo não estava neste meu texto, nós não devemos pregar Cristo sempre, nós devemos pregar o texto. O velho, então, respondeu: “Você não sabe rapaz, que de cada cidade, cada vila ou vilarejo na Inglaterra, onde quer que esteja, há uma estrada para Londres? … da mesma forma, em cada texto da Escritura , há uma estrada para Cristo, e seu trabalho é quando chegar a um texto dizer: qual é a estrada para Cristo, e então pregar o sermão percorrendo a estrada até Cristo.
Precisamos urgentemente olhar para o AT com o foco correcto, abandonando nossas mensagens de moralização, onde não há lugar para Cristo, esquecer as mensagens motivacionais e de auto-ajuda que esforçam o texto para falar aquilo que queremos, e anunciar Cristo em cada ponto da Escritura. O Pastor Jaílson Santos certa vez disse que “O desafio de pregar de forma cristocêntrica reside no facto de que Cristo está em todas as passagens da Escritura, mas ele não está em todos os textos da mesma maneira”.4
Assim, precisamos pregar Cristo através de cada tema da Bíblia, de cada grande personagem bíblico e cada história de libertação. Precisamos abandonar urgentemente este cristianismo sem Cristo. “Precisamos saber como um determinado texto conecta-se a Cristo, antes de saber como podemos conectá-lo aos cristãos em Cristo”.5
Resultados da pregação cristocêntrica
Nesta segunda parte de nosso artigo, reflectiremos sobre os efeitos que uma pregação cristocêntrica gera na vida do povo de Deus. À luz do texto de Lucas 24.28-35 encontramos alguns resultados que uma pregação centralizada em Cristo pode produzir.
1) A pregação centrada em Cristo, aumenta a sede pela Palavra (v. 28, 29).
Quando Jesus e os dois discípulos se aproximaram da aldeia, eles “constrangeram” para que Jesus ficasse, não só porque já era tarde, mas acima de tudo porque Jesus lhes despertou um grande interesse pela Palavra, eles queriam ouvi-la mais. Quando a Palavra é devidamente pregada e Cristo claramente anunciado, a sede de querer ouvi-lo é maior. Grande parte do êxodo de membros em muitas igrejas deve-se ao facto de que a Palavra não tem sido anunciada e Cristo cada vez mais tem sido esquecido. Nas palavras de Spurgeon: “alguns estão mais preocupados em entreter os bodes, do que em alimentar as ovelhas”.
2) A pregação centrada em Cristo de forma soberana, produz abertura de olhos cegos (v.30,32)
Por alguma razão que o texto não esclarece, Jesus faz o que o dono da casa deveria fazer – dar graças pela comida. Depois disso os olhos deles se abriram e Jesus desaparece. O começo desta narrativa já mostra que “os olhos deles estavam impedidos de reconhecê-lo” (cf Lc 24.16, NVI) a palavra utilizada por Lucas (κρατέω) trás a ideia de agarrar, ou ser mantido em determinado estado, desta forma, a cegueira foi produzida por algo externo a eles, e então depois que Jesus lhes expunha a Escritura, (διανοίγω), literalmente abrir em pedacos e explicar minuciosamente, a cegueira foi retirada. Deus agiu soberanamente para fechar e abrir os olhos dos dois discípulos. A nossa tarefa é apenas anunciar; o Senhor fará o resto. O pregador não é chamado a produzir resultados, mas a ser fiel. É a Palavra de Cristo que dá vida ao vale de ossos secos, e não a nossa; é a palavra dele que tem a promessa de que não voltará vazia, e não o nosso achismo; é a Palavra dele que queima o coração, quando devidamente anunciada, e não as nossas histórias.
3) Por fim, a pregação centrada em Cristo, revigora a vontade de testemunhar (v.33-35). Os discípulos não temeram os perigos da noite e muito menos os quase 11 quilômetros que deveriam percorrer, eles sentiram o fogo da Palavra que lhes queimava e lhes deu novamente a alegria perdida e o anseio de anunciar a verdade de que Jesus realmente ressuscitou.
Conclusão
Após sua ressurreição, Jesus poderia muito bem ter ascendido directamente ao céu, mas permaneceu aproximadamente 40 dias. Ele achou importante ficar ainda com os discípulos e mostrar-lhes que tudo que a Escritura anunciou sobre ele foi cumprido. Diante de tudo, por experiência, reconheço que a tarefa de pregarmos de maneira cristocêntrica não é fácil. E salientando a dificuldade de pregadores cristãos, David King diz que “eles sentem a força lógica da questão cristocêntrica e concluíram a necessidade de proclamar Jesus a partir do Antigo Testamento. No entanto, o caminho a seguir permanece obscuro”.6 Essa dificuldade se acentua para o contexto da igreja angolana, pelo menos por dois motivos. Primeiro, porque em boa parte dos currículos das nossas instituições teológicas não consta a disciplina de teologia bíblica, já que é por meio dela que somos instruídos sobre a melhor maneira de entendermos a história da redenção, através da compreensão adequada da unidade da Escritura. Além disso, dentro das matérias de Homilética e Hermenêutica, muito pouco se estuda sobre como pregar e interpretar de acordo aos gêneros literários da Bíblia. Em segundo lugar, deve-se à escasses bibliográfica no nosso mercado literário cristão sobre este assunto. É verdade que em algumas livrarias já podemos encontrar alguns poucos livros muito importantes que nos podem auxiliar. Contudo, comparado à quantidade de publicação de livros já disponíveis sobre o assunto, percebemos que ainda nos falta um longo trajecto. De tudo que foi abordado, precisamos deixar bem assente que:
1. Para que nossas pregações sejam cristocêntricas, devemos começar por mudar a nossa hermenêutica da Escritura, principalmente do Antigo Testamento. Abandonando as pregações moralizantes.
2. Devemos ver Cristo como a mensagem central de toda Bíblia. Perguntando de que maneira este livro, o capítulo ou mesmo o versículo me a aponta para Cristo. De outra forma, nossas mensagens não passarão de meras palestras motivacionais. Stuart Olyott diz que “A Bíblia revela Cristo. Ele é o grande tema das Escrituras. Cada parte da Bíblia aponta para Cristo. Se não podemos ver como uma passagem específica aponta para Ele, isso acontece porque ainda não entendemos a passagem como deveríamos. Onde Cristo não é o centro, ali não há exatidão exegética”.7
3. Como pregadores e estudantes da Bíblia é essencial não nos esqueçermos do evangelho. Precisamos anunciá-lo, mas para isso é importante nos certificarmos se realmente conhecemos o evangelho. Porque pode ser que aquilo que presumimos ser o evangelho, na verdade não passa de uma mensagem light e diluída.
Por: Giovanni Casimiro,
Em tudo Soli Deo gloria, nunc et semper.
Sugestões Bibliográficas
Esta sugestão de livros limita-se aos que podem ser encontrados nas principais livrarias do nosso mercado angolano:
– CHAPELL, Bryan. Pregação Cristocêntrica: Um guia prático e teológico para a pregação expositiva. 3 ed., São Paulo: Cultura Cristã, 2016.
– CLOWNEY, Edmund. Pregando Cristo em toda a Escritura, São Paulo: Vida Nova, 202.
– GOLDSWORTHY, Graeme. Pregando toda Bíblia como Escritura cristã. São José dos Campos, SP: Fiel, 2015.
– GOLDSWORTHY, Graeme. Introdução à teologia bíblica: O desenvolvimento do evangelho em toda a Escritura, São Paulo, 2018.
– GREIDANUS, Sidney. Pregando Cristo a partir do Antigo Testamento, 2 ed., São Paulo: Cultura Cristã, 2019.
– HAMILTON, James M. O que é teologia bíblica?: Um guia para a história, o simbolismo e os modelos da Bíblia. São José dos Campos, SP: Fiel, 2016.
– MEYER, Jason. Teologia bíblica da pregação: a mensagem que glorifica a Deus, honra as Escrituras e edifica a igreja, São Paulo: Vida Nova, 2019.
– WRIGHT, Christopher. Como pregar e ensinar com base no Antigo Testamento, São Paulo: Mundo Cristão, 2018.
- LAWSON, Steven. O tipo de pregação que Deus abençoa. São José dos Campos, SP: Fiel, 2015, p. 22. ↩︎
- GREIDANUS, Sidney. Pregando Cristo a partir do Antigo Testamento. 2ª Ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2019, p. 26. ↩︎
- FEE, Gordon e STUART, Douglas. Entendes o que lês? 4ª Ed. SP: Vida Nova, 2011, p. 109. ↩︎
- SANTOS, Jaílson. Publicado em sua página do Facebook. ↩︎
- CHESTER, Tim e HONEYSETT, Marcus. Pregação centrada no evangelho. São Paulo: Cultura Cristã, 2017, posição 1037, Edição do Kindle. ↩︎
- KING, David M. O seu sermão no Antigo Testamento precisa ser salvo: um manual para proclamar Jesus a partir do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2023, p.16. ↩︎
- OLYOTT, Stuart. Pregação pura e simples. São José dos Campos, SP: Fiel, 2008, p. 44. ↩︎



