Criação Ex-Nihilo

  1. Introdução

Criação ex-nihilo é uma expressão latina para designar a compreensão da doutrina bíblica da criação. Com a expressão criação ex-nihilo se quer dizer que Deus criou o mundo sem qualquer matéria ou meio preexistente. Deus simplesmente falou e as coisas apareceram, com espaço e o tempo que precisavam ocupar. Essa doutrina não tenta explicar o processo da criação; ela deixa isso em mistério. E isso não deveria ser um problema para nós, visto que a afirmação de ser Deus o criador dos céus e da terra é pressupõe a confissão na onipotência de Deus.

Embora criação ex-nihilo não seja um termo que se acha no cânon bíblico, vários textos da Bíblia parecem ensinar isso de modo implícito. Digo implícito porque não há passagem bíblica que a ensine de modo explícito. [1] No entanto, Gênesis 1.1 registra o início da criação, apresentando Deus criando o mundo sem material preexistente. A parte restante de Gênesis 1 descreve Deus criando todas as coisas pelo poder e comando de sua palavra. É importante notar que Deus faz isso em cada dia da criação, fato em si, que refuta a teoria da evolução. Pois esta afirma que a criação surgiu de uma “seleção natural”, a partir de longos períodos de tempo, a famosa ideia de ancestralidade comum de todas as espécies. [2]

  1. O ato criativo de Deus

A Bíblia apresenta o ato criativo de Deus como sendo mediata (com meios) e imediata (sem meios). Sabemos que os céus e a terra foram criados imediatamente, ao passo que tanto homem como algumas criaturas foram criados mediatamente, isto é, a partir da terra (Gn 1.24; 2.7). Gênesis registra com repetição frequente que o homem, as demais criaturas, bem como as plantas foram criados “segundo a sua espécie” (Gn 1.11-12, 21, 24-25), sendo que estes não produzem outras espécies. Ademais, a narração da criação diz que do homem foi feito do pó da terra, que o sopro de Deus o tornou alma vivente (Gn 2.7) e que em tudo isso ele fora criado à imagem de Deus (Gn 1.26-27).

Hebreus 11.3 é outro texto fortemente utilizado para defender a doutrina da criação ex-nihilo: “Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem”. Este texto faz clara alusão a Gênesis 1. Vejamos as sentenças que ele ensina:

1) A criação é um fato que apreendemos somente pela fé – “Pela fé, entendemos que foi o universo formado” – Visto que ninguém estava presente quando Deus criou o mundo, a crença de que a criação se origina com Deus torna-se um ato de fé. O homem tem de confiar no que Deus diz em sua Palavra sobre a origem do mundo.

2) A criação veio a existência pela palavra de poder de Deus – “foi o universo formado pela palavra de Deus” – O termo fé governa as sentenças de Hebreus 11.3. Pelo que o mesmo que foi dito na sentença anterior sobre a crença no que Deus diz sobre a origem do mundo também se aplica aqui. A criação veio a existência pela palavra de comando de Deus. Salmos 33.9 também diz isso: “Pois ele falou, e ele veio a existir; ele ordenou, e ele ficou firme”.

3) A criação visível surgiu do invisível – “de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem” – essa linguagem é coerente com a doutrina criação ex-nihilo, e até a sugere. O problema é que ela deixa em aberto a possibilidade de Deus ter criado o mundo a partir de algo invisível, de um material preexistente invisível. No entanto, podemos citar Romanos 4.7 para fazer conexão com esta sentença de Hebreus: “[…] o Deus que vivifica os mortos e chama à existência as coisas que não existem”. É verdade que este texto não fala da criação, mas sim da esperança de Abraão de que teria um filho. No entanto, a ideia geral de Paulo pode ser fielmente aplicada aqui: Deus é poderoso para trazer a existência o que não existe. Nesta mesma linha, podem ser citados outros textos como 1 Coríntios 1.28 e 2 Coríntios 4.6 como textos que sugerem a ideia de criação ex-nihilo.

  1. Conclusão

Esses e outros motivos (não apresentados aqui) [3], devem nos fazer rejeitar a teoria da evolução como a doutrina da criação, não importa se é evolução ateísta (naturalista) ou teísta. Nas palavras de Louis Berkhof, “evolução teísta é uma contradição de termos. É tão destrutiva para a fé na doutrina bíblica da criação como a evolução naturalista; e recorrendo à atividade criadora de Deus de vez em quando, anula também a hipótese evolucionista”. [4]

Por: Kennedy Bunga

NOTAS:
[1] – Veja a discussão sobre isso em FRAME, John. Teologia Sistemática. SP: Cultura Cristã, p. 256-258. Vol. 1
[2] – HAM, Ken et al. A origem: quatro visões cristãs sobre a criação, evolução e designer inteligente. RJ: Thomas Nelson, 2019, p. 159-162
[3] – Para uma crítica mais robusta, veja GRUDEM, Wayne et al. Evolução teísta: uma crítica científica, filosófica e teológica. SP: Vida Nova, 2022.
[4] – BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. 4ª ed. SP: Cultura Cristã, 2012, p.130.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *