Quando a igreja se deixa moldar por outras vozes Part. 1

Parte 1/3

Giovanni Casimiro

Vivemos um tempo em que muitas vozes tentam moldar a igreja: a cultura, o pragmatismo, o sentimentalismo e até teologias que parecem piedosas, mas afastam do coração do Evangelho. Esta série — “Quando a igreja se deixar moldar por outras vozes” — procura reflectir sobre esses perigos e lembrar qual é a única voz que deve guiar o povo de Deus: a do próprio Senhor, revelada na Sua Palavra.

  1. A INFLUÊNCIA DO LIBERALISMO TEOLÓGICO

O liberalismo não foi apenas um debate teórico — ele abalou a própria identidade da igreja. Suas ideias penetraram tão fundo que alguns chegaram a considerá-lo quase uma religião à parte. Machen descreveu esse conflito de forma clara:

A grande religião da redenção, que sempre foi conhecida como o Cristianismo, está batalhando contra um tipo de crença religiosa totalmente diferente, que se torna ainda mais destrutiva da fé cristã por utilizar a terminologia cristã tradicional. Essa religião moderna não redentora é chamada de ‘modernismo’ ou ‘Liberalismo. (MACHEN, 2012, p. 10)

Ou seja: não é apenas uma nova roupagem do cristianismo, mas algo que usa a linguagem da fé para propor uma religião completamente distinta. Esse terreno foi preparado pelo racionalismo e iluminismo, que desde o século XVI deslocaram a filosofia de “serva da teologia” para árbitro da verdade. Costanza resume esse espírito:

O racionalismo dava ênfase principalmente a dois pontos: (1) liberdade e dignidade, e (2) investigação científica. (COSTANZA, 2005, p. 82)

Esses valores trouxeram benefícios sociais, mas ao mesmo tempo minaram a fé. Quando a razão humana se torna o padrão último, Deus acaba moldado à imagem do homem. O resultado foi descrito por Costanza como ateísmo crescente, declínio da fé e enfraquecimento da vida espiritual. Não é de surpreender que Lopes conclua:

“O liberalismo teológico produziu incredulidade, confusão e apostasia. […] As igrejas liberais, sem exceção, acham-se em declínio maciço.” (LOPES, 2008, p. 82)

Em outras palavras: igrejas que abandonam a autoridade da Escritura até podem parecer modernas ou atrativas, mas acabam vazias de vida espiritual. Outro traço ligado ao liberalismo foi o deísmo, surgido na Inglaterra do século XVII. Costanza explica que ele surgiu como reação à ideia de que só a igreja ou a revelação do Espírito poderiam ensinar sobre Deus (COSTANZA, 2005, p. 83). O problema é que, nesse modelo, Deus se torna um Criador distante, sem espaço para revelação, milagres, providência ou encarnação (COSTANZA, 2005, p. 84). Esse “Deus ausente” contrasta totalmente com o Deus da Bíblia. Grudem lembra que a providência mostra a ação contínua de Deus no mundo:

“Deus está continuamente envolvido com todas as coisas criadas […] preserva-as, coopera com elas e as orienta no cumprimento dos seus propósitos.” (GRUDEM, 2010, p. 250)

SCHLEIERMACHER E O PERIGO DO SUBJECTIVISMO 

Outro nome central do liberalismo foi Schleiermacher, que colocou a experiência humana como base da teologia conforme conta McDermott (2013, p.153) “Qualquer coisa que a igreja cristã pense sobre Deus deve provir da reflexão a respeito de sua própria experiência.”

A ideia de Schleiermacher de que a religião é principalmente sentimento de dependência parece, à primeira vista, até piedosa. Mas na prática é perigosa porque reduz a fé a uma experiência interior subjetiva, deixando de lado o fato de que Deus se revelou de forma objetiva em sua Palavra. Esse pensamento abriu caminho para um cristianismo em que a autoridade final não é mais a Escritura, mas aquilo que eu sinto. E isso vemos hoje em muitas igrejas:

  • Pregações centradas em experiências pessoais e não no texto bíblico.
  • Cânticos que exaltam mais o “meu sentir” do que a grandeza de Deus. 
  • Decisões e práticas baseadas em “acho que Deus falou comigo” em vez de “a Bíblia ensina”.

O perigo é que quando o critério se torna a emoção individual, cada pessoa se torna uma espécie de autoridade espiritual. Isso fragmenta a igreja, enfraquece a doutrina e cria um ambiente onde a verdade é relativizada. No fim, o que parece espiritual — “eu sinto Deus assim” — acaba sendo uma espiritualidade frágil, sem raiz na Palavra, facilmente abalada por crises, dúvidas ou novas modas religiosas.

A experiência é importante, mas não pode substituir a voz de Deus. Quando isso acontece, perdemos a revelação e ficamos reféns do subjectivo. Não por acaso, Criswell afirmou:

“Nenhum liberal jamais construiu uma grande igreja, conseguiu um grande reavivamento ou ganhou uma cidade para o Senhor.” (CRISWELL, apud LOPES, 2008, p. 82)

Conclusão 

O liberalismo pode soar sofisticado, mas não gera vida espiritual. Igrejas saudáveis só podem ser edificadas quando permanecem firmes na suficiência, autoridade e inerrância da Palavra de Deus, tendo Cristo ressurreto no centro de tudo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *