Quando a igreja se deixa moldar por outras vozes Part. 2

Parte 2/3

  1. A INFLUÊNCIA DO MOVIMENTO DE CRESCIMENTO DE IGREJAS (MCI)

No início do século XX, a propagação da falsa doutrina liberal devastou um grande número de igrejas ao redor do mundo — basta olhar para o estado da igreja na Europa. Hoje, embora a teologia liberal já não esteja no seu apogeu, surgiu outra filosofia de ministério, mais sutil, mas igualmente perigosa: o Movimento de Crescimento de Igrejas (MCI). A sua sutileza consiste em, à primeira vista, não parecer ameaçar doutrinas centrais; os seus pressupostos aparentam ser meramente metodológicos. Não nos deixemos iludir.

Um dos propósitos óbvios da igreja é alcançar o mundo com o Evangelho. Quando não vemos frutos visíveis desse esforço, a frustração leva muitos a procurar soluções práticas: novos métodos, programas interativos, música “mais atraente”, ou um ambiente de culto mais descontraído para “tirar o rótulo de igreja chata”. É aí que o MCI entra — e, sem que percebamos, transforma meios em fins.

John MacArthur descreve com franqueza a lógica desse movimento:

A nova filosofia é objectiva: a igreja está competindo com o mundo. O mundo é hábil em captar a atenção e os sentimentos das pessoas. A igreja, por outro lado, tende a ser muito pobre na ‘venda’ de seu produto. Portanto, o evangelismo deve ser visto como um desafio de marketing. (MACARTHUR, 1997, p. 20)

Esse diagnóstico é um alerta: o MCI trata o evangelho como se fosse um produto a ser embalado e vendido. George Barna, citado por MacArthur, exemplifica a mentalidade:

Acredito que desenvolver uma mentalidade de marketing é exatamente aquilo que a igreja precisa, se quisermos fazer a diferença na saúde espiritual desta nação, no final deste século. (apud MACARTHUR, 1997, p. 20)

A consequência lógica é óbvia — se o objetivo do marketing é satisfazer o consumidor, tudo o que desagrada o consumidor tende a ser removido. Assim, elementos essenciais da mensagem bíblica que “incomodam” — pecado, ira divina, inferno, propiciação — correm o risco de serem suavizados ou omitidos para não afastar plateias. MacArthur denuncia esse processo:

Não se engane, a nova filosofia está alterando a mensagem que a igreja anuncia ao mundo, embora muitos que propagam essas ideias considerem-se leais à doutrina bíblica. O cristianismo está novamente em declínio. (MACARTHUR, 1997, p. 20)

Além de diluir a mensagem, o MCI redefine o padrão de “ministério saudável”. Sucesso passa a ser medido por resultados externos: crescimento rápido, receitas e quem constróio a igreja mais vistosa. Mas concentrar-se unicamente nesses indicadores traz dois extremos perigosos. Lopes aponta-os com clareza:

O primeiro extremo que precisamos evitar é a numerolatria. Hoje, nós estamos vendo igrejas bêbadas pelo sucesso. Elas estão embriagadas pelos resultados. Elas querem quantidade a qualquer custo. Para encher os templos, os pregadores mudam a mensagem e oferecem um evangelho sem exigências […] o segundo extremo é a numerofobia. Essa é a atitude da acomodação. Ela acontece quando a igreja se conforma com a esterilidade e cria justificativas para tentar tapar o sol com a peneira e justificar a sua falta de frutos espirituais. (LOPES, D., 2008 p. 63, grifo do autor)

Portanto, tanto a obsessão pelos números (numerolatria) quanto o conformismo estéril (numerofobia) são sinais de desorientação ministerial. Como Lopes observa ainda:

A igreja saudável cresce normalmente, mas nem toda igreja que cresce é saudável. (LOPES, D., 2008 p. 215)

MCGAVRAN E A ORIGEM ANTROPOLÓGICA DO MCI

William McGavran, pioneiro do movimento, trouxe uma abordagem prática e observacional ao estudar por que algumas igrejas crescem e outras não. O que inicialmente veio como interesse missionário transformou-se numa metodologia que privilegia dados e ciências sociais. Lopes resume o diagnóstico de McGavran:

McGavran compreendeu que a falta de crescimento da igreja está grandemente condicionada por pensamentos defensivos, por racionalizações teológicas e acomodação espiritual. (LOPES, D., 2008, p. 213)

Rainer, citado por Duarte, aponta algo decisivo: McGavran iniciou sua análise das ciências sociais para a Escritura, e não da Escritura para as ciências sociais — o que determinou o DNA do movimento como antropológico mais do que bíblico. 

Essa prioridade invertida explica por que muitas soluções propostas pelo MCI resolvem sintomas numéricos sem cuidar da saúde doutrinária e espiritual. Caldas, comentando a realidade contemporânea, nota que em busca de crescimento muitas igrejas adotaram práticas e pressupostos que se assemelham à Teologia da Prosperidade: usar promessas e experiências como mecanismo para atrair multidões. Assim, o MCI acabou por se tornar, em alguns círculos, uma estrutura pragmática que copia técnicas eficazes, não necessariamente verdadeiras.

O PRAGMATISMO — UM PERIGO EM DETALHE 

pragmatismo é a tentação de julgar o certo e o eficaz pelo que produz resultados práticos imediatos. Em ministério, isso significa avaliar pregação, liturgia e programas segundo duas perguntas: “Isto funciona?” e “Isto atrai?”. Quando essas se tornam as perguntas centrais, a Bíblia deixa de ser o padrão último e torna-se um recurso entre outros.

Manifestações concretas do pragmatismo nas igrejas de hoje:

  • Culto convertido em espetáculo: iluminação, som e produção crescentes; o conteúdo bíblico perde espaço para atrações que mantêm a plateia “confortável” e entretida.
  • Pregação orientada por técnicas de retenção: ênfase em slogans, frases fáceis e “aplicações práticas” que agradam, em vez de exegese profunda e confrontação com o pecado.
  • Programas que priorizam números: múltiplas microaudiências, eventos para público-alvo, métricas de engajamento mais importantes que discipulado.
  • Substituição do discipulado por conversões rápidas: decisões emocionais são valorizadas; acompanhamento pastoral e maturidade doutrinária, muitas vezes, ficam de lado.
  • Profissionalização e cultura de “celebridade”: pastores-celebridade, técnicas de branding pessoal e dependência de figuras carismáticas para atrair público.
  • Sincretismo prático: adoção de práticas culturais (algumas provenientes da Teologia da Prosperidade) que “funcionam” para crescer, mesmo que contrariem uma teologia bíblica consistente.

Por que isso é sério? Porque o evangelho não é uma técnica — é o poder de Deus para a salvação (Rm 1.16). Quando substituímos a confiança na eficácia divina pela busca de eficácia humana, perdemos aquilo que torna a igreja única e eficaz perante Deus: fidelidade, perseverança no ensino bíblico e ação do Espírito Santo.

MacArthur bem sintetiza a objeção ao pragmatismo:

O pragmatismo é a noção de que o significado ou o valor é determinado pelas consequências práticas […] quando o pragmatismo, entretanto, é utilizado para formularmos juízos acerca do certo e do errado ou quando se torna a filosofia norteadora da vida, da teologia e do ministério, acaba inevitavelmente, colidindo com as Escrituras. (MACARTHUR, 1997, p. 7)

A Escritura mesmo nos mostra que verdade e eficácia nem sempre andam juntas: o evangelho nem sempre produz resposta favorável (1Co 1.22–23; 2.14), e as mentiras podem ser eficazes para enganar (Mt 24.23–24; 2Co 4.3–4). Portanto, eficácia numérica não é prova de fidelidade.

Como resistir ao pragmatismo ?

  • Priorizar exegese e pregação expositiva: deixar a Escritura falar primeiro.
  • Medir saúde por fruto espiritual: maturidade doutrinária, vida de oração, discipulado, santidade, não apenas números.
  • Investir em formação teológica de líderes: para que decisões metodológicas sejam informadas pela teologia.
  • Manter práticas sacramentais e disciplina eclesial: elementos que formam a comunhão e protegem a doutrina.
  • Valorizar tempo e paciência: crescimento bíblico é, muitas vezes, lento e custoso.

MacArthur sintetiza o critério bíblico de sucesso ministerial:

Critérios exteriores tais como afluência, números, dinheiro, ou reações positivas jamais foram a medida bíblica de sucesso no ministério. Fidelidade, piedade, e compromisso espiritual são as virtudes que Deus estima; e tais qualidades deveriam ser os tijolos com os quais se constrói uma filosofia de ministério. Isto é verdadeiro tanto para as igrejas grandes como para as pequenas. Tamanho não é sinónimo da bênção de Deus; e popularidade não é barômetro de sucesso. (MACARTHUR, 1997, p. 26)

Conclusão 

O MCI trouxe contribuições importantes ao arrancar a igreja da autocomplacência missionária, mas o seu DNA antropológico e o pragmatismo que o acompanha são perigosos quando definem a teologia e moldam a mensagem. Crescer é bom e desejável; crescer do modo bíblico é mandatório. A igreja deve evitar tanto a numerolatria quanto a numerofobia — o equilíbrio só se encontra quando a fidelidade à Palavra orienta meios e fins.

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