Quando a igreja se deixa moldar por outras vozes Part. 3

Parte 3/3

Giovanni Casimiro

3 A necessidade de igrejas saudáveis

As grandes ameaças que a igreja de Cristo enfrenta — seja pelo liberalismo teológico, pelo Movimento de Crescimento de Igrejas (MCI) ou por outras correntes — devem alertar os líderes. Não se trata apenas de debates intelectuais: muitas destas influências deturpam a santa Palavra de Deus e conduzem comunidades à letargia, à doença espiritual e ao desvio. Precisamos de uma resposta prática: edificar igrejas saudáveis, porque esse é o caminho bíblico para enfrentar as enfermidades que assolam a igreja hoje. Esse caminho passa por um entendimento claro e por uma aplicação sólida das marcas que definem uma igreja saudável.

Desde cedo, a história cristã procurou estabelecer critérios para reconhecer a verdadeira igreja. Com o surgimento das heresias tornou-se necessário, como lembra Berkhof, “estabelecer um padrão de verdade ao qual a Igreja deve corresponder.” (Berkhof, apud Maia, 2007, p. 113). Em linguagem prática: a comunidade cristã não pode ser definida apenas por aparência ou boas intenções; deve corresponder a um padrão de verdade.

Na Reforma, essa preocupação foi expressa com clareza. Grudem cita Calvino:

João Calvino afirmou: onde quer que ouçamos a Palavra de Deus puramente pregada e ouvida, e os sacramentos ministrados conforme instituídos por Cristo, ali, e não se deve duvidar, existe uma igreja de Deus. (Grudem, 2010, p. 724)

Estas balizas históricas encorajam e alertam. Uma comunidade onde a Palavra não é pregada fielmente e os sacramentos não são devidamente ministrados afasta-se do padrão bíblico e corre o risco de tornar-se — na expressão forte do debate histórico — uma falsa igreja. Dito de outro modo: há igrejas verdadeiras (doutrinariamente ortodoxas) que, contudo, estão enfermas na sua vida prática; reconhecer essa distinção é essencial para o trabalho pastoral.

As marcas tradicionais que ajudam a diagnosticar a saúde e a veracidade da igreja são várias. Entre as que costumam ser apontadas, destacam-se: pregação expositiva, teologia bíblica, a centralidade do Evangelho, evangelização, conversão, membresia, disciplina bíblica, discipulado e liderança eclesiástica. Neste trabalho escolheremos tratar de cinco delas, de modo a cumprir os nossos objetivos com a devida profundidade.

Mark Dever observa com sobriedade:

A igreja não é perfeita. Mas, graças a Deus, muitas igrejas imperfeitas são saudáveis. Entretanto, receio que uma quantidade maior de igrejas não o sejam — mesmo entre aquelas que afirmam a divindade de Cristo e a plena autoridade das Escrituras. (Dever, 2013, p. 24)

Ou seja, ter credos corretos não elimina a necessidade urgente de vitalidade prática e discipulado. Vários autores que estudam a revitalização de igrejas notam que, como organismos vivos, as congregações passam por ciclos: nascem com vigor e alegria, mas podem envelhecer e perder vitalidade. Swindoll sintetiza bem esse padrão:

As organizações tendem a perder a vitalidade ao invés de ganhá-la à medida que o tempo passa. Elas tendem a dar maior atenção ao que foram ao invés do que estão se tornando. (Swindoll, apud Santos, 2011, p. 12–13)

São muitos os factores que conduzem uma igreja verdadeira ao enfraquecimento — acomodação espiritual, defesas pastorais ineficazes, falta de discipulado, liderança frágil, substituição da centralidade bíblica por metodologias. Por isso, a revitalização é um tema recorrente entre pastores e teólogos.

Michael Ross define revitalização de forma útil e prática:

O processo por meio do qual uma igreja é redirecionada à sua missão de evangelização e edificação, bem como renovada no esforço de ministrar aos outros de tal forma que o crescimento numérico, espiritual e organizacional se torna uma realidade. (Ross, apud Santos, 2014, p. 137)

É importante distinguir revitalização de avivamento. O avivamento ou despertamento é, primariamente, obra especial do Espírito Santo — um derramar que não se reduz a técnicas humanas. A revitalização, por sua vez, refere-se a um conjunto de acções intencionais — teológicas, pastorais e estratégicas — para restaurar a vida de igrejas em declínio. Não se trata de “programas brilhantes” temporários, mas de recuperar marcas bíblicas duradouras.

Por isso acreditamos que as marcas que apresentaremos a seguir não são apenas critérios diagnósticos; são também instrumentos de restauração. Quando recuperadas e praticadas com fidelidade, essas marcas podem ser o divisor de águas entre uma igreja apenas “verdadeira em formulários” e uma igreja realmente saudável e viva.

Conclusão 

A história mostra que a igreja pode conservar doutrina correta e, ainda assim, adoecer na prática. O nosso desafio pastoral é duplo: rejeitar as influências que corroem a autoridade da Palavra e reconstruir comunidades à imagem do Evangelho. Revitalizar não é modernizar a qualquer custo, nem regressar passivamente ao tradicionalismo; é restabelecer a centralidade da Escritura, o discipulado fiel, a pregação expositiva e a liderança responsável — para que o crescimento que venha seja, de facto, saudável e duradouro.

Bibliografia de consulta

COSTANZA, J.R.S. As raízes históricas do liberalismo teológico. In: Revista Fides 

Reformata X nº 1, 2005, p. 76-99

DEVER, M. 9 marcas de uma igreja saudável. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2013

DUARTE, J. A., Os perigos do movimento de crescimento da igreja (MCI) para a 

revitalização de igrejas. in: Revista Fides Reformata XXI, Nº 2, 2016, p. 97-123,

MAIA, H,. Fundamentos da teologia reformada. SP: Mundo Cristão, 2007

MACHEN, J. G., Cristianismo e liberalismo. SP: Shedd Publicações, 2012

MACARTHUR, J. F. Com vergonha do Evangelho: quando a igreja se torna como o 

mundo. São José dos campos, SP: Editora Fiel, 1997

MCDERMOTT, G. R.,. Grandes teológos: uma síntese do pensamento teológico em 21  séculos de Igreja. SP: Vida Nova, 2013

GRUDEM, W., Teologia Sistemática, actual e exaustiva. 2ª ed, SP Vida Nova, 2010

LOPES, H. D., A importância da pregação expositiva para o crescimento da Igreja.  SP: Shedd Publicações, 2008

SOBRE O AUTOR

Giovanni Casimiro  é formado em Direito (Universidade Metodista de Angola) e em Teologia (Seminário Emanuel do Dondi). Especialista em Teologia Reformada pela (IRSP/FASU) e em Cosmovisão Cristã (STAS). Mestrando em Estudos Bíblicos pelo International Reformed Theological College.

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