É fato que dentre os grandes desafios que enfrentamos todos os dias, a tensão relacional entre o cristão e a cultura fazem parte destes assuntos prementes. Tal inquietação não é somente do nosso tempo, é dos primórdios do cristianismo, pois nossos irmãos na igreja primitiva enfrentaram-na também. O que se compreende aos nossos dias é que no afã de se manter puro de qualquer influencia cultural corrompida, os cristãos negam toda cultura, porque assim é mais fácil não serem moldados por ela e, concomitantemente cria-se dois mundos – o mundo dos cristãos e o mundo dos não cristãos. Muitas vezes constrói-se um submundo dentro do mundo dos não cristãos, para incluir os cristãos que abraçam certos aspectos culturais, estereotipando-os como “cristãos carnais”, uma posição pseudocristã nunca encontrada na Bíblia, mas que resulta de uma visão míope sobre as Escrituras e sobre a fé cristã.
Por isso, torna-se asseverativo a necessidade da igreja conhecer a cultura ao redor, seus aspectos que permitem relacionar com o cristianismo, visando livrar-se dos elementos putrefatos de uma ou de outra cultura. E daqui inicia a empreitada de definir a cultura, com o intuito de criar filtros que nos ajudarão a enxergar o que podemos abraçar e o que rechaçamos.
1. O que é cultura
É importante realçar que conceituar cultura é uma tarefa hercúlea, pois é incondensável tanto em seu sentido lato, como em sentido restrito. E muitas vezes ao defini-la dentro de uma nação deverá se reservar o espaço para sua análise dentro das demais subculturas, provinciais ou comunais, não encontrando deste modo, uma maneira tão simplificada que explique tudo rapidamente.
De modo geral, a palavra cunhada em português por “cultura” é oriunda do latim, culturae, que significa “ação de tratar”, ou “cultivar a mente e os conhecimentos”. Originalmente, o termo culturae surge de outra palavra latina “colere”, que significa “cultivo de plantas” ou “ato de desenvolver atividades agrícolas”. Em sentido lato, representa o resultado da aplicação do conhecimento humano no desenvolvimento de obras e atividades que possuem mérito e qualidade, bem como, o envolvimento de outros na apreciação e apreensão dessas atividades. Também pode ser entendido neste sentido amplo, como o “cultivo de hábitos, interesses, língua e vida artística de uma nação: histórias, símbolos, estruturas de poder, estruturas organizacionais, sistemas de controle, rituais e rotinas (FERREIRA, 2013).
Em seu sentido restrito, é definido como manifestação de hábitos ou costumes da vida cotidiana, como o tipo de gastronomia, o vestiário, as artes e os ofícios, como principais meios que caracterizam a tradição de uma sociedade.
Talvez, fruto desta dificuldade de defini-la nasce certas posições que colocam alguns cristãos em oposição a toda cultura ou abraçá-la sem qualquer critério crítico da cultura no qual a pessoa nasceu e/ou vive. E segundo Solano Portela Neto “um dos problemas que confrontamos é que a visão da sociedade secular tende a classificar como “cultura” tudo o que caracteriza uma sociedade, considerando essas formas de expressão como moralmente neutras. Ou seja, tudo que um povo produz é considerado “cultura”, seja ela erudita ou popular. Não existe o certo ou o errado, quando se trata de cultura, é apenas uma questão de usos e costumes”. Todavia, esta não é uma compreensão que procede da Escritura Sagradas, e ainda mais se considerarmos que todas as culturas foram afetadas pela queda dos nossos representantes federais, Adão e Eva.
Minha percepção é que o problema da igreja no contexto angolano parte muito da incompreensão holística sobre a aplicação do Cristianismo prático em todas as esferas, e por isso, tacitamente transfundimos a ideia de a que a fé cristã é algo de fórum privado; o que não é verdade. O Cristianismo é mais do que uma crença particular, o cristianismo é o sistema mais compreensível que não só se preocupa com o aspecto salvífico, mas também, em como devemos lidar com outras esferas da criação enquanto peregrinos nesta terra.
Como dizia o grande Teólogo do século XIX que se tornou o primeiro-ministro da Holanda, Abraham Kuyper (1837-1920), “o princípio dominante da verdade cristã não é soteriológico (i.e., Justificação pela fé), mas cosmológico (i.e., a soberania do Deus triúno sobre todo o cosmos, em todas as suas esferas e reinos, visíveis e invisíveis). Portanto, a totalidade do cosmos só pode ser entendida em relação a Deus” ( Nancy Pearcey, Verdade Absoluta, p.12).
Está visão muda à maneira como lidamos com todas as outras áreas da criação como conversos que compreendem o governo de Deus sobre tudo e, portanto, a cultura não está de fora deste entendimento. Pois se entendermos que a verdade dominante da vida cristã é soteriológica, nos sentaremos esperando a vinda do nosso senhor, já que Deus não resgatará a cultura, mas o homem fazedor de cultura. Todavia, ao entendermos que a verdade dominante é cosmológica, nossa cosmovisão como agentes da criação, se amplia, pois sabemos que Deus não nos deixou aqui como espectadores. Somos deixados nesta terra com a mesma missão de guardar e cultivar (Gn 2:27). Embora tudo tenha sido afetado pela queda, somos colocados aqui para cuidar da criação de Deus.
2. Como cristãos, como devemos lidar com a cultura?
H. Richard Niebuhr (1894-1962), em seu livro o Cristo e a Cultura apresenta cinco categorias de classificação do relacionamento entre o cristão e a cultura, do qual nos fornece ferramentas que embora não sejam aceitas por todos, julgo-as importantes para referi-las aqui.
a) Cristo contra a cultura
Este primeiro tipo de relacionamento com a cultura foi muito comum na igreja primitiva, e de acordo com Niebuhr, era uma reação perfeitamente compreensível. Os cristãos enfatizaram um modelo exclusivista e contracultura; os remidos eram ensinados a amarem Cristo e aos irmãos, mas, rejeitarem o mundo. Um dos exemplos que Niebuhr apresenta aqui é a do pai da igreja, Tertuliano (160 —220 d.C.), nascido em Cartago ( atual Tunísia). Tertuliano deixa explícita a posição Cristo contra a cultura em sua famosa frase: “o que tem Jerusalém a ver com Atenas, a igreja com a academia, o cristão com o herege?”
Para Tertuliano o entendimento de Colossenses 2:8, 1Timóteo 1:4, 2Timóteo 2:17, levou-lhe a concluir que após Cristo não temos necessidade de especulação, após o evangelho não precisamos mais pesquisar. Pois ao crermos em Cristo, extingue-se todo desejo de crer em outra coisa a mais que não seja o evangelho. Todavia, embora Tertuliano tivesse uma abordagem considerável à luz de seu contexto, sua apologética não permitia perceber mais sobre a graça comum entre os pagãos. Desafortunadamente, sempre que fizermos uma apologética através de uma análise menos holística da fé cristã, este pode ser o mesmo caminho a trilharmos.
b) O Cristo da cultura
Esta posição é antagônica a primeira, e como destaca Niebuhr, esta é a herança do liberalismo protestante, que com o intuito de tornar interessante a apologética e o evangelismo no contexto alemão, os liberais deixaram o cristianismo mais razoável para pessoa que já não criam em milagres.
Está posição, mostra a acomodação de certos cristãos quanto a cultura, que no afã de evitarem qualquer tensão entre a igreja e a sociedade, abraçam toda cultura, com dizeres: “se é da cultura, devemos aceitar”, ou “toda cultura é boa e, se esta é a cultura deste povo devemos respeitar”. A estes tipos de cristãos imiscuem-se os que concebem a religião como uma questão da alma, sustentando a confissão de que “Cristo salva apenas a alma e abandona o corpo a seu bel prazer, e acabam caindo na visão da igreja alemã do Reich e seus pregadores que jurou obediência a Hitler” (Michel Horton, O Cristão e a Cultura, p. 44).
c) Cristo acima da cultura
Como bem o expressa a categoria, Cristo acima da cultura, nesta posição diz Niebuhr, “a questão fundamental aqui é entre Deus e o homem e não entre Cristo e o mundo. Este posicionamento é adotado pelos católicos por influência de Clemente de Alexandria (150–215 d.C) e Tomás de Aquino (1225–1274 d.C.), do qual busca-se unir o cristianismo com a cultura e, a igreja passa a reger tudo que deve ser aceite como cultura. À título de exemplo, é que se presencia na “Idade Média [onde] o ensino eclesiástico alcançou quase todos os aspectos da sociedade” (FERREIRA, 2013). Neste período, a música, a arte, a ciência, só seriam aceites caso fossem feitas sobre o escrutínio da igreja, caso a igreja não chancelasse, considerava indigna de aceitação.
Como o Rev. Franklin Ferreira nos amplia o horizonte “a igreja e sua mensagem são institucionalizadas e o que deveria ser condicionado culturalmente é absolutizado. O que é levado não é o evangelho, mas uma cultura”. Um caso típico do nosso contexto angolano, é quando uma pessoa morre e a família exige que o viúvo ou a viúva deva ficar dias sem banhar para cumprir o ritual. A questão é: como cristãos, isso procede das Escrituras, é digno de ser aceite?
d) Cristo e cultura em paradoxo
Esta quarta posição, Niebuhr refere-se como “dualismo” por rejeitar as tentativas do Cristo acima da cultura (Michel Horton, Ibid., p. 45). Aqui impera a dupla cidadania. E para os dualistas, a questão imprescindível não é traçar uma linha que separe o cristão e o mundo secular, mas entre Deus e toda a humanidade. Está posição é atribuída aos luteranos. Martinho Lutero (1483-1546) enfatizou este tema com sua doutrina dos “dois reinos” com a frase “a mão esquerda, mundana, segura a espada do poder no mundo, enquanto a mão direita, celeste, segura a espada do Espírito, a Palavra de Deus”.
À luz deste posicionamento, Niebuhr sugere que “a cultura jamais será um meio para se encontrar a Deus e, portanto, se opõe da opção Cristo da cultura” (Michel Horton, Ibid., p.46). Nesta conformidade, nenhuma esfera rege sobre a outra, pois são todas distintas e com propósitos totalmente diferentes. O Estado e as demais instituições são agências positivas através das quais os homens em união social prestam serviço aos próximos, avançando rumo à vida verdadeira, elas simplesmente são como pequenos travões contra o pecado.
e) Cristo, o transformador da cultura
Nesta última categoria que Niebuhr acolhe como particularmente sua, ele frisa a ação de levar a cultura cativa ao senhorio de Cristo, considerando os aspectos da queda e, enfatizando mais o princípio criacional bom. “Os defensores deste posicionamento não têm ilusões de que este mundo seja um dia transformado num paraíso pelo progresso humano, mas estavam ansiosos por ver a mão de Deus nos avanços científicos da medicina, das artes, o do conhecimento e geral” (Michel Horton, Ibid., p. 47).
De acordo com o Frankin Ferreira (2013) “Agostinho (354-430), João Calvino (1509-1564), John Wesley (1703-1791) e Abraham Kuyper (1837-1920) são alguns dos que entenderam que os cristãos são agentes de transformação da cultura”. E, portanto, se a nossa compreensão sobre a queda da humanidade for saudável no sentido de que todas as áreas da criação foram afetadas, então, concluiremos que Deus redimirá tanto o homem, quanto a cultura.
3. Cultura e Escrituras Sagradas
O mandato cultural é um conceito bem trabalhado na Teologia Reformada, mostrando-nos que não somos simplesmente contempladores desta grande obra de Deus, mas fomos colocados aqui para dominarmos a terra. Portanto, o mandato cultural envolve a vice-gerência do homem sobre o cosmo. O homem é colocado na terra para desenvolver e manter tudo aquilo que havia sido criado por Deus – através deste mandato, Deus colocou a humanidade em um relacionamento singular com a criação, para dominar e sujeitar (Gn 1.28), guardador e cultivador (Gn 2.17). É como se Deus nos deixasse a responsabilidade de sua hospedaria e nós como zeladores somos convidados a fazer uma gestão sábia, sabendo que brevemente voltará a fim de cobrar as contas de como gerimos tudo.
Como o Rev. Heber Campos Jr. afirma em suas palestras sobre cosmovisões cristã, “nossa dificuldade de entender o nosso papel [é] porque fomos enredados a acreditar na separação entre esfera pública e privada”. Nós sabemos que como cristãos devemos viver para glória do Senhor em todas as áreas de nossa vida, porém, na hora de prática, não conseguimos fazer isso fora das quatro paredes onde estamos todos os domingos (igreja). Não sabemos como lidar com a música secular, como lidar com as tradições, como lidar com os aspectos culturais que chocam com os princípios bíblicos. Porque às vezes a pessoa é líder na igreja, mas na sociedade é chamado a deixar a religião à parte (aqui não se fala só do cidadão em geral, mas membros da igreja que quando há encontros familiares, cede ao esquecimento da igreja por um momento para dar espaço à tradição). Isso revela que o problema está no fundamento. Na verdade, não sabemos quem realmente somos e o que fomos chamados a fazer nesta terra.
A igreja Cristã não precisa acoplar a ela as coisas seculares dando uma roupagem gospel. Não, nós precisamos levar ao mundo a cultura do reino – ela terá a responsabilidade de moldar e descortinar os ídolos das culturas ao redor e, ao mesmo tempo permitir que a sociedade trace distinções entre nós e eles. Como bem disse certa vez o Rev. Emílio Garofalo Neto, “a Bíblia é a única que fere toda cultura”. E eu corroboro com esta verdade.
4. Considerações finais
1) Todo ser humano é um ser cultural. A cultura está intrinsecamente ligada a nós desde o nascimento e crescimento a ponto de jamais nos desvencilhamos dela. Neste prisma, todo nosso comportamento refletirá a cultura que mais ficou timbrada em nossos corações. Sendo assim, é nossa responsabilidade como cristãos, percebermos o tipo de cultura que estamos absolvendo, se bíblica ou terrena e espúria.
2) Não precisamos rejeitar tudo e viver como se tudo nessa terra fosse diabólica, não. Devemos compreender nosso papel transformacional na cultura, levando-a cativa ao senhorio de Cristo, o que muitas vezes exigirá de nós agirmos em posição subcultural ou contracultural diante deste mundo caído.
3) Nenhuma cultura é neutra, ou ela refletirá os ídolos desta cultura ao redor, ou refletirá o criador de todo o universo, mas por causa da queda, toda cultura por mais linda que seja, por mais que seja feita pelos cristãos, ainda assim está afetado pelo pecado e, portanto, é o lembrete a ficarmos atentos aos aspectos de nossa cultura que nas entrelinhas nos seduzem a andarmos de mãos dadas com elas sem qualquer análise crítica.
4) Não podemos ser mais bantus, mais bacongos, mais ambundus, mais umbundus e mais ovimbundus do que bíblicos. Não se deixe levar por pessoas que achem que tudo que surge contra a cultura é fruto da ocidentalização, não. Não foi o Ocidente que ditou a Bíblia, ela é o sopro do Deus soberano e, portanto, ele exige exclusividade.
5) Você não entenderá a beleza das coisas, a menos que entendas o propósito da criação. E por mais que enxerguemos a beleza da paisagem, ela não fará tanto sentido a ponto de despertar o que está por detrás dela, até que saiba como a queda desestruturou as coisas. Esta visão certamente te levará a enxergar em Cristo, o redentor das coisas, que por aqui vemos como de uma maneira nublada, aí sim, tudo será mais lindo ainda.
Saibamos que toda cultura foi criada boa por Deus, a queda afetou todas, até as melhores culturas do mundo, mas o Senhor vem e com ele tudo volta ao modelo criado bom.
Por: Luís Mendonça
SUGESTÕES DE LEITURAS:
1 – KUYPER, Abraham. Existe um lugar para a Arte, no Calvinismo? Disponível em: <http://www.monergismo.com/textos/cultura/calvinismo_cultura_arte_kuyper.htm>
2 – HORTON, Michael S.. O Cristão e a Cultura. SP: Cultura Cristã, 1998.
3 – NIEBUHR, H. Richard – Cristo e Cultura. Editora: Paz Terra, 1967
4 – CAMPOS, Heber Carlos. Série cosmovisão Cristã- escola teológica Charles Spurgeon-2013. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=2du3lQ8TWNs&t=26s>
5 – FERREIRA, Franklin. O Cristão e a Cultura. Disponível em: <https://voltemosaoevangelho.com/blog/2013/02/franklin-ferreira-o-cristao-e-a-cultura/>
6 – PORTELA NETO, Solano. Cultura: a fé cristã é contra ou a favor? Disponível em: <http://www.monergismo.com/textos/cultura/fe_cultura_solano.htm>



