Introdução
O Credo dos Apóstolos foi escrita em latim, e remonta ao século II, ano 140 d.C. Mas acredita-se que ele só alcançou sua forma definitiva no século VII, ano 700 d.C.[1] Acredita-se que o Credo dos Apóstolos surgiu a partir de pequenas confissões batismais nas igrejas dos primeiros séculos. Assim, é mais provável que o Credo dos Apóstolos não foi elaborado diretamente pelos apóstolos, mas sim pela igreja sub-apostólica na tentativa de declarar publicamente as verdades bíblicas ensinadas pelos apóstolos, as quais eles criam piamente. Como tal, desde o seu surgimento o credo apostólico desempenhou um papel fundamental na igreja ao longo dos anos.
- Uso doutrinário
Inicialmente, o Credo Apostólico servia de instrução aos que se interessavam em professar a fé cristã. O historiador Mark Noll escreve que “as antigas versões do Credo dos Apóstolos e declarações semelhantes eram usadas para preparar os novos convertidos para o batismo”.[2] Os novos convertidos eram instruídos nessas breves declarações da fé cristã e recitavam ela no ato do batismo.
Alister McGrath atesta isso na sua obra: “A igreja primitiva costumava batizar seus convertidos no dia de Páscoa, usando o período de quaresma como um tempo de preparação e instrução voltado para esse momento de profissão pública de fé e de compromisso. Um requisito essencial era que cada convertido, que desejasse se batizar, deveria declarar publicamente sua fé.”[3]
Posteriormente, o Credo dos Apóstolos foi usado no sentido de definir entre a fé cristã verdadeira e as suas imitações heréticas. Uma pessoa ou uma igreja local que se dizia cristã tinha de professar as verdades essenciais da fé cristã expressas no Credo dos Apóstolos. Embora o Credo dos Apóstolos não tivesse surgido originalmente como proteção contra os ensinos heréticos, ele logo viera a ter essa importante função.
Nesta função, o uso doutrinário do Credo dos Apóstolos tornou-se importante não somente para os novos membros da igreja (catecúmenos), mas também para os antigos membros, no sentido de resguardar o ensino da igreja contra os ensinos heréticos.
Mark Noll nos fornece alguns exemplos que mostram como as afirmações do Credo dos Apóstolos protegiam a igreja contra os ensinos herético:
“[…] a afirmação do credo de que Deus é tanto ‘pai’ quanto ‘criador do céu e da terra’ rechaçava o persistente ensino gnóstico de que o Deus revelado e Cristo era uma divindade puramente espiritual que considerava o mundo material como um estorvo a ser afastado. De igual modo, as afirmações do credo de que Cristo nasceu e de que ele sofreu na cruz e morreu visavam uma ampla gama de heresias docéticas que afirmavam que Cristo somente pareceu assumir carne e relacionar-se fisicamente com o mundo. A confissão do credo de que Jesus era o ‘Cristo’ retrocedia às disputas com os judeus sobre se os ensinos do Antigo Testamento acharam a sua culminação em Jesus de Nazaré. A declaração de crença na ‘santa igreja católica’ (na terceira seção do credo ou a seção de Espírito Santo) afirmava a universalidade do cristianismo; ela atingia vários grupos cristãos, tais como os seguidores de Márcion, que se consideravam sociedades seletas e limitadas, afirmando serem os únicos que verdadeiramente entendiam o relacionamento de Deus com o mundo.”[4]
Portanto, o Credo dos Apóstolos expressava a fé da igreja e ao mesmo tempo que forneciam um norte teológico para fazer face as heresias.
- Uso litúrgico
Inicialmente o Credo dos apóstolos foi usado no ato do batismo. A declaração pública de fé era um dos requisitos essenciais para que os novos convertidos fossem batizados. Isso era feito mediante declarações interrogativas que o pastor fazia ao candidato ao batismo, e o mesmo precisava responder afirmativamente para então ser batizado.
O historiador Mark Noll, escrevendo sobre isso diz: “No terceiro século havia o costume generalizado na igreja de que aqueles que estava sendo preparados para serem batizados (o que geralmente ocorria na Pascoa) deviam responder a uma série de perguntas que tinham a seguinte forma: “Você crê em Deus Pai todo-poderoso…? Você crê em Jesus Cristo Você crê no Espírito Santo…?” Assim sendo, esses credos foram primeiramente um meio de ensinar acerca da fé trinitária, e depois, para aqueles que ingressavam na igreja, um meio de expressar essa fé como a sua própria pessoal.”[5]
Posteriormente, isto é, provavelmente a partir do século IV, o Credo dos Apóstolos passou a ser usado no culto, sendo recitados pela igreja após a leitura das Escrituras. Ainda hoje, várias igrejas usam o Credo dos Apóstolos em sua liturgia. Por exemplo, na denominação em que pertenço, Igreja Presbiteriana de Angola (IPA), temos o costume de recitar Credo dos Apóstolos após a confissão de pecados. Fazemos isso como reafirmação da nossa fé.
Conclusão
O Credo Apostólico não é uma invenção meramente humana, mas uma síntese das verdades essências da fé cristã tal como ensinadas pelos apóstolos, registradas na Bíblia. Como tal, ele teve seu uso ao longo da história da igreja, e bem-faremos em resgatar o uso dela para os nossos dias.
Kennedy Bunga
NOTAS:
[1] – NOLL, Mark A. Momentos decisivos na história o cristianismo. Trad.: Alderi Souza de Matos. SP: Cultura Cristã, 2000, p. 46; CRAMPTON, W. Gary. Creio: um estudo do credo dos apóstolos. Trad.: Felipe Sabino de Araújo Neto. DF: Monergismo, 2020, p. 22-23.
[2] – NOLL, Mark A. Momentos decisivos na história o cristianismo, p. 46.
[3] – MCGRATH, Alister E. Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução a teologia cristã. Trad.: Marisa K. A. de Siqueira Lopes. SP: Shedd Publicações, 2005, p. 54.
[4] – NOLL, Mark A. Momentos decisivos na história o cristianismo, p. 48.
[5] – Idem, p. 46.

