A Fundamentação Bíblica
O triple ofício de Cristo diz respeito não essencialmente a três ofícios, mas há um oficio triplo. A palavra latina para isso é “munus tríplex”. Há somente um oficio, o de Mediador, mas esse único ofício inclui as três funções: Profeta, Sacerdote e Rei.
A ideia de mediador é algo que ocorre nas Escrituras, tanto do Antigo como do Novo Testamento (Dt 5.5; 1Tm 2.5). Os mediadores poderiam exercer, mediante a unção1, a função de um profeta, que fala de Deus ao povo; de um sacerdote, que fala do povo para Deus (em sacrifício e intercessão); e de um rei, que governa o povo em representação de Deus.2
A Teologia Bíblica mostra que as respectivas funções de profeta, sacerdote e rei que os homens exerciam no AT apontavam para Cristo, o verdadeiro mediador que levaria as três funções em si. Em Deuteronômio 18.15, por exemplo, há uma clara afirmação de que Israel deveria esperar um grande profeta; o autor aos hebreus descreve como o sacerdote Melquisedeque era um tipo de Cristo em sua função sacerdotal (Hb 7.1-3; Cf. Gn 14.18-20); e, em Daniel 7.13,14 fala profeticamente do reinado que seria dado ao Filho do homem, que é uma clara profecia sobre Cristo.
No AT, em Israel, profeta, sacerdote e rei estão inseparavelmente unidos. Esses três ofícios se complementavam. No entanto, no AT uma pessoa não poderia ter as três funções. Um era chamado para ser profeta, outro para ser sacerdote (da tribo de Levi, linhagem de Arão) e outro para ser rei. Uma exceção a isso são alguns sacerdotes que posteriormente foram chamados para serem também profeta (p.ex. o profeta Ezequiel). Mas tirando isso, deveria se respeitar as esferas de ação. Cada um tinha sua respectiva função, onde um não poderia fazer o trabalho do outro. Saul é um exemplo que incorreu neste erro e foi posteriormente rejeitado como rei (1 Sm 13.8-14).
Entretanto, nosso Senhor Jesus é o verdadeiro mediador para quem os profetas, sacerdotes e reis do AT apontavam. Razão pela qual, Cristo traz em si o triple ofício. Essas três funções foram cumpridas na pessoa de Cristo. Como profeta, Cristo representa Deus para o homem, revelando sua vontade; como Sacerdote, Cristo representa o homem na presença de Deus, por meio de seu sacrifício e intercessão; e como Rei, Cristo exerce e estabelece domínio sobre o mundo, governando sobre seu povo e subjugando seus inimigos.
O Desenvolvimento Histórico
1) Os pais da igreja
Vemos a ideia do triple oficio de Cristo já desde o IV século, com Eusébio de Cesárea. Ele disse que os profetas, sacerdotes e reis eram tipos de Cristo:
“De modo que todos esses fazem referência ao verdadeiro Cristo, o Verbo divinamente inspirado e celestial, que é, o único Sumo Sacerdote de todos os e o único Rei de toda criatura, e o único supremo Profeta dos profetas do Pai”.3
Um outro exemplo deste período é o grande pregador João Crisóstomo, que tratava disso ao se referir-se às “três dignidades” de Cristo: rei, profeta, sacerdote.4
2) Os teólogos medievais
Também podemos ver a abordagem do tríplice ofício de Cristo nos teólogos medievais.5 Um exemplo que podemos citar são as palavras do doutor angelical, Tomás de Aquino, que escreveu:
“Outros homens têm esta ou aquela graça concedida a este ou aquele, mas Cristo, sendo Cabeça de todos, tem a perfeição de todas as graças. Portanto, quanto aos outros, um é um legislador, outro é um profeta, outro é um rei, mas tudo isso coincide em Cristo, como a fonte de toda graça”.6
3) Os reformadores
Dentre muitas das coisas que os reformadores nos ensinaram, estão os ofícios de Cristo. Calvino, por exemplo, disse que “para que saibamos a que propósito Cristo foi enviado pelo pai, com três coisas se devem nele ter em consideração acima de tudo: o ofício profético, a realeza e o sacerdócio”.7
Calvino diz que o conhecimento destes ofícios de Cristo tem o propósito e a aplicação para nossa salvação:
“Portanto, para que a fé ache em Cristo sólida matéria de salvação, e assim nele descanse, deve-se estabelecer este princípio, a saber: que o ofício que lhe foi outorgado pelo Pai consta de três partes. Ora, ele foi dado não apenas como Profeta, mas também como Rei, e ainda como Sacerdote, se bem que de pouco proveito fosse conhecer estes nomes, se não lhes fosse acrescentado o conhecimento do propósito e da aplicação”.8
Esta verdade se propagou por todo movimento reformado, ao ponto de inserirem ela nas confissões reformadas. O tríplice oficio tornou-se uma formula-chave tanto na catequese como na teologia reformada, ao ponto de praticamente todas as confissões reformadas trazerem o tópico sobre os ofícios de Cristo. Vejamos:
- Confissão Belga (1561) – Art. 21: “Cremos que Jesus Cristo é ordenado por um juramento para ser um sumo sacerdote eterno.”
- Catecismo de Heidelberg (1563) – P. 31: “(…) ele foi ordenado por Deus Pai e ungido com o Espírito Santo para ser o nosso supremo profeta e mestre (…) e para ser o nosso sumo sacerdote (…) como também para ser o nosso eterno rei (…)”.
- Segunda Confissão Helvética (1566) – XI.17: “Eis porque professamos e pregamos, com toda a clareza, que Jesus Cristo é o único redentor e Salvador do mundo, o rei e o sumo sacerdote (…)”.
- Confissão de Fé de Westminster (1647) – VIII.1: “Aprouve a Deus, no seu eterno propósito, escolher e ordenar o Senhor Jesus, seu Filho unigênito, para ser o mediador entre Deus e o homem, o profeta, sacerdote e rei (…)”.
- Breve Catecismo de Westminster (1647) – P.23: “Cristo, como nosso redentor exerce os ofícios de profeta, sacerdote e rei, tanto no seu estado de humilhação quanto no seu estado de exaltação”.
- Confissão de Fé Batista (1689) – VIII.1: “Aprouve a Deus, em seu eterno propósito, e de acordo com o pacto estabelecido entre ambos, escolher e ordenar o Senhor Jesus, seu Filho unigênito, para ser o Mediador entre Deus e os homens, o profeta, sacerdote e rei (…)”.
Embora vemos precedentes do tríplice ofício de Cristo nos pais da igreja, foram os reformadores que a desenvolveram e a aprofundaram, apresentando significados a eles afixados. Por exemplo. O Breve Catecismo de Westminster faz uma elaboração sobre elas:
Pergunta 24. Como Cristo exerce as funções de profeta?
Resposta: Cristo exerce as funções de profeta, revelando-nos pela sua Palavra e pelo seu Espírito, a vontade de Deus para a nossa salvação.
Pergunta 25. Como Cristo exerce as funções de sacerdote?
Resposta: Cristo exerce as funções de sacerdote por ter oferecido a si mesmo, de uma vez por todas, em sacrifício, para satisfazer a justiça divina e reconciliar-nos com Deus, e fazendo contínua intercessão por nós.
Pergunta 26. Como Cristo exerce as funções de rei?
Resposta: Cristo exerce as funções de rei, sujeitando-nos a si mesmo, governando-nos e protegendo-nos, contendo e subjugando todos os seus e os nossos inimigos.
Implicações práticas
Certamente há várias implicações, porém, neste artigo, nos limitaremos em analisar de como os ofícios de Cristo nos ajudam na tentação. Para isso, tomaremos o texto de Lucas 22.31-32 como estudo de caso. A questão que se faz é: Como os ofícios de Cristo nos ajudam em nossas tentações?
1) Como Profeta Cristo nos adverte da tentação
No verso 31, vemos Cristo, como profeta, trazer uma revelação sobre o que Satanás fez com relação aos discípulos: reclamou para os peneirar. Como profeta, Jesus já revelou a traição de Judas no momento da Ceia (Lucas 22.21-23). Agora, ele revela o ataque que Satanás intenta fazer aos discípulos.
Isso é mostrado na palavra “Satanás vos reclamou”. Outras traduções trazem a palavra “Satanás vos pediu”.9 A palavra grega usada aqui de fato pode ser traduzida como “reclamar/exigir” ou “pedir”. Mas o que precisa ficar claro para nós é que esta não é uma palavra comumente utilizada para fazer um pedido esperando ser atendido. Na Bíblia grega esta palavra só ocorre aqui, cujo sentido é “exigir, pedir como se tivesse o direito a isso”. Portanto, o que estamos vendo aqui é Satanás exigir que Deus lhe deixe atacar os discípulos.
Alguns cristãos acham que a fé em Jesus garante imunidade ao maligno. Mas estão enganados. Algumas vezes seremos deixamos nas mãos de Satanás para nos esbofetear, assim como aconteceu com esses apóstolos e mais tarde, com o apóstolo Paulo com relação ao espinho que lhe foi posto na carne (2 Co 12.7). No entanto, isso não deve nos fazer temer além do normal. Pois, embora às vezes Satanás chega a colocar suas mãos em nós, ele não faz isso sem a soberana permissão de Deus (1 Co 10.13; Cf. Jó 1, 2).
Satanás realizaria o ataque sacudindo a fé dos discípulos. A imagem de peneirar os discípulos remete ao ato de peneirar o trigo, que se refere basicamente ao ato de sacudir repetida, rápida e violentamente o trigo na peneira. Satanás não brinca de ser Satanás. Nenhum passo dele em direção a nós é uma ação de teste; sempre é uma ação de destruição. Então cuidado com Satanás. Ele é mais poderoso do que nós. Ele nos conhece, nossas virtudes e fraquezas. Ele já destruiu tantos homens na história e sabe como nos destruir também.
2) Como sacerdote Cristo nos preserva pela intercessão
As palavras de Jesus no verso 32 estabelecem um contraste entre a ação de Satanás e a ação de Cristo. Pedro e os demais discípulos estão entre Satanás e Cristo.10 No verso 31 pelo seu oficio profético Jesus revela o projeto maligno de Satanás; e agora no verso 32, pelo se oficio sacerdotal Jesus fala da sua obra de intercessão em favor dos discípulos. Veja o contraste: “Simão, Satanás pediu você; eu, porém, pedi por ti”. Jesus é o nosso sacerdote, que expiou o nosso pecado e vive intercedendo por nós (Hb 7.25). Ele pode fazer isso porque na cruz ele morreu pelos nossos pecados.
Embora outras pessoas possam orar por nós, somente a oração de Cristo é de tal eficácia.11 Portanto, aqui vemos mais uma vez o contraste entre o direito de Satanás e o direito de Cristo. Satanás exige ter os discípulos para os destruir; mas Cristo realmente é quem tem direito sobre os discípulos para os preservar (Cf. Rm 4.25).
Observe que em resposta a intenção satânica contra os discípulos, Jesus não orou para que Simão não fosse tentado por Satanás. Antes, a oração de Jesus foi para que a fé de Simão não desfalecesse. O verbo traduzido aqui por desfalecer no grego é a palavra ἐκλίπῃ (Eklípe), de onde vem a nossa palavra eclipse. Este verbo significa “cessar”, “falhar”, “escurecer”, “desfalecer”. A oração de Cristo é para que sua fé não desfaleça completamente.12
Isto mostra que a fé em Jesus não é garantia de completa vitória sobre tentação. Pedro deveria cair, mas não completamente. Seria abatido, mas não destruído. Aqui está a doutrina da perseverança dos santos ensinada pelos reformadores. Confira o que diz a Confissão de Fé de Westminster (CFW XVII.1, 2):
“Os que Deus aceitou em seu Bem-amado, os que chamou eficazmente e santificou pelo seu Espírito, não podem decair do estado de graça, nem total nem finalmente; mas com toda a certeza, hão de perseverar neste estado até o fim e estarão eternamente salvos.
Essa perseverança dos santos não depende do livre-arbítrio deles, mas da imutabilidade do decreto da eleição, procedente do livre e imutável amor de Deus Pai, da eficácia do mérito e intercessão de Jesus Cristo, da permanência do Espírito, da semente de Deus neles e da natureza do pacto da graça; de todas essas coisas, vêm a sua certeza e infalibilidade”.
3) Como rei Cristo nos conduz a restauração
Como Rei Cristo determina e nos conduz a restauração. Observe que Cristo não disse para Simão “se te convertes”, mas sim “quando te converteres” (v.32b). A palavra usada no grego tem como tradução literal “uma vez”, dando com isso a certeza de que apesar da queda de Simão, ele seria conduzido a restauração. O termo converter aqui não significa que Simão ainda não estava convertido. Esta palavra significa “retornar”, “voltar”. A ideia é Simão retornaria, seria restaurado. Aqui certamente podemos ver o poder real de Cristo.
A queda de Simão no ataque do diabo foi grande (v.33; Cf. 22.54-62). Mas Cristo o restaurou mais tarde (Jo 21). Isso nos mostra que Cristo não abandona seus servos. Como Rei, ele nos conduz a restauração. Temos de nos lembrar disso em nossas lutas contra a carne, o mundo e Satanás.
A restauração de Pedro serviria também de benefícios aos demais irmãos. É isso que está na segunda parte do final do verso 32: “fortalece os teus irmãos”. Tanto é que mais alguns anos depois, tendo já experiência na tentação do diabo, Pedro pôde usar de sua experiência para fortalecer seus irmãos (1 Pe 5.8-11). Não podemos deixar de ver aqui Cristo como Rei transformando o mal de Satanás para o nosso bem. Certamente a intenção do diabo é destruir a nossa fé pelo seu ataque. Mas Cristo usa isso para fortalecer nossa fé. Louvado seja o nome de Cristo, nosso Profeta, Sacerdote e Rei!
Kennedy Bunga
- No AT, o ato de ungir traz a ideia de designar, apontar ou eleger alguém para uma função. Conforme Gerard Van Groninger: “O Antigo Testamento deixa muito claro que o único legitimamente designado para ser ungido é aquele que o Senhor escolheu. Este foi o caso de Arão como sumo sacerdote, dos sacerdotes (Êx 29.7; 40.15), de Eliseu, o profeta (1 Rs 19.16), bem como dos reis (1 Sm 9.16)” (GRONINGER, Gerard Van. Revelação messiânica no Antigo Testamento. 3ª ed. Trad. Cláudio Wagner. SP: Cultura Cristã, 2018, p. 22). ↩︎
- Na cultura do Antigo Oriente Próximo via-se o rei como a imagem de Deus, isto é, o seu representante na terra. Veja: WALTON, John. Pensamento do Antigo Oriente Próximo e o Antigo Testamento: introdução ao mundo conceitual da Bíblia hebraica. Trad.: Marcio Loureiro Redondo. SP: Vida Nova, 2021, p. 71. ↩︎
- Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica, 1.37-8, Apud BEEKE, Joel. Teologia Sistemática Reformada. SP: Cultura Cristã, 2023, p. 756. ↩︎
- Cf. BARRETT, Mattew (Ed.). Teologia da Reforma. RJ: Thomas Nelson Brasil, 2017, p. 305. ↩︎
- Havia alguns que falavam apenas do duplo ofício. Veja: BARRETT, Mattew (Ed.). Teologia da reforma, p. 306. ↩︎
- Tomás de Aquino. Suma Teológica, Parte 3, P. 22, Art.1, Resposta a Objeção 3; Cf. P.26, Art. 1, Resposta a Objeção 1. ↩︎
- CALVINO, João. As Institutas. Vol. 2. SP: Cultura Cristã, 2006, p. 248. ↩︎
- CALVINO, João. As Institutas, p. 248, ↩︎
- ARC, NAA, NVI, NVT e A21. ↩︎
- Isso lembra o histórico combate de Gênesis 3.15. Veja: VOS, Geerhardus. Teologia Bíblia: Antigo e Novo Testamentos. 2a ed. SP: Cultura Cristã, 2019, p. 57-63. ↩︎
- Veja as perfeições da intercessão sacerdotal de Cristo em BEEKE, Joel; SMAILLEY, Paul. Teologia Sistemática Reformada. SP: Cultura Cristã, 2023, p. 926-944. ↩︎
- HENDRIKSEN, William. Lucas. 2a ed., vol. 2. SP: Cultura Cristã, 2014, p. 540. ↩︎



