O cristão e o trabalho

— “Uff, maldita segunda-feira. Será que devo mesmo ir ao trabalho hoje?” Pensou João depois de um belo final de semana.

Nós pensamos no trabalho da infância até nossa velhice e a razão disso é simples: nós fomos criados para o trabalho, já que o nosso Deus é um exímio trabalhador. Precisamos pensar de forma correcta sobre nosso trabalho para pudermos exercê-lo da melhor forma possível. Aquilo em que acreditamos molda a forma como viveremos. A doutrina correcta, deve levar à uma vivência correcta, embora muitas vezes nós cristãos temos sido incoerentes com isso, pois temos uma ortodoxia bíblica, mas nosso estilo de vida é péssimo.

1. Ideias erradas sobre o trabalho

A maior parte das pessoas tem um pensamento dicotómico com relação ao trabalho. Com isso quero dizer que categorizamos o trabalho em sacro ou profano. Ainda paira na mente de muitos, que os trabalhos de cunho religioso são os mais dignos que os trabalhos “seculares” ou o inverso. Essa forma de pensar é bem antiga. Quantos são os crentes que de segunda a sexta estão aborrecidos pela atividade “secular” que exercem, mas seus níveis de alegria disparam no fim de semana, porque ali sim poderão trabalhar para o Senhor, seja como regente de coro, músico, evangelista entre outras coisas?

Um outro contraste em que vivemos, é que trabalhos de índole religiosa não são mais vistos como realmente um trabalho. Certo Pastor questionado sobre o que fazia, afirmou “sou pastor”. De seguida a pessoa pergunta: “E qual é o seu emprego? Novamente respondeu: “Sou Pastor”. Trabalho hoje é visto como toda atividade capaz de encher nosso bolso.

Uma consequência de dicotomizarmos o trabalho, é que não perceberemos a dignidade de todo trabalho, essa é outra ideia errada que temos sobre o trabalho semeada também há muitos anos.

2. Atitudes erradas com relação ao trabalho

Existem duas atitudes que perigam o nosso trabalho. Em primeiro lugar, quando fazemos do trabalho nosso ídolo. Sim, ídolo não é só fazer um pequeno boneco e dirigir a ele nossas preces. Lawrence afirma que “um ídolo é algo ou alguém sem o qual você não consegue se sentir feliz nem realizado. Podemos transformar quase qualquer coisa em ídolo: sexo, dinheiro, as opiniões de outras pessoas a nosso respeito, segurança, controle, conveniência” (LAWRENCE, Michael. Conversão: como Deus cria um povo, p. 57).

A segunda atitude errada é o desleixo com relação ao nosso trabalho. O apóstolo Paulo exortou da seguinte forma aos trabalhadores:

“Escravos, obedecei em tudo a vossos senhores deste mundo, não servindo só quando observados, como quem quer agradar os homens, mas de coração íntegro, temendo o Senhor. E tudo quanto fizerdes, fazei de coração, como se fizésseis ao Senhor e não aos homens” (Cl 3.22,23, Almeida 21).

3. Nosso chamado para o trabalho

A grande razão de todo ser humano ansiar o trabalho é porque o trabalho existe desde a eternidade: “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). Na criação Deus imprimiu sua imagem e semelhança no ser humano (Gn 1.26,27) e uma das implicações disso é que fomos dotados para o trabalho, isso porque nosso Deus trabalha desde o princípio.

Deus não só trabalhou, mas apreciou aquilo que fez: “e viu Deus que era bom” (Gn 1.12). Isso leva-nos à firme conclusão de que há lugar para o belo, o sentir prazer e alegria naquilo que fazemos. “No princípio, então Deus trabalhou. O trabalho não é um mal necessário que adentrou o cenário mais tarde ou algo que fora criado para os seres humanos fazerem, mas que estava abaixo da dignidade do poderoso Deus. Não. Deus trabalhou por puro prazer e alegria. O trabalho não poderia ter tido um início mais glorioso” (KELLER, Timothy; ALSDORF, Katherine Leary. Como integrar fé e trabalho: nossa profissão ao serviço de Deus, p. 37).

Deus não só trabalhou, mas também chamou representantes para continuar sua obra. Há quem pense que “o trabalho é um mal necessário e fruto da queda”. Isso não passa de um engano, pois o casal começou a trabalhar muito antes da queda. O primeiro trabalho dos nossos pais era de guardar e cultivar o Jardim bem como dar um nome para os animais (Gn 2.15, 20).

Um outro aspecto, que cada crente precisa ter em conta é que o nosso trabalho não pode ser visto como uma mera ocupação, mas como um chamado. “Somente viva cada um como o Senhor lhe DETERMINOU, cada um como Deus o chamou. É isso que ordeno em todas as igrejas” (1 Co 7.17, ênfase minha). Isso significa que ao nos tornarmos crentes, não precisamos procurar um trabalho “sacro”, mas exercer o que já fazíamos. Timothy Keller e Alsdorf nos ajudam ao dizer o seguinte:

“Nesse caso, Paulo não está se referindo a ministérios da igreja, mas às tarefas social e económica — “trabalho secular”, poderíamos dizer —, afirmando que se tratam de chamados e designações feitos por Deus. A implicação é óbvia: assim como Deus equipa os cristãos para a edificação do corpo de Cristo, também equipa todas as pessoas com talentos e dons para os vários tipos de trabalho, para a edificação da comunidade de seres humanos” (Ibidem, p. 64).

Portanto, ver o nosso trabalho como chamado é ter a noção de que precisamos servir aquele que nos chama, e não tanto aos nossos interesses. “Vocação não é algo que nós determinamos pelos nossos próprios interesses. Isso é um contrassenso, pois quem deveria determinar é quem vocaciona” (JUNIOR, Heber Carlos de Campos. Amando a Deus no mundo: por uma cosmovisão reformada, p. 560). O trabalho como chamado ou vocação nos leva a entendê-lo como um caminho utilizado por Deus para servirmos ao próximo e a sociedade onde há necessidades, mas do que para o nosso próprio deleite. Percebo que essa é uma verdade dura (pelo menos para mim), pois cresci ouvindo que devemos escolher nosso emprego com base simplesmente em nossas inclinações e em áreas que nos darão segurança financeira.

Por: Giovanni Casimiro

SUGESTÕES DE LEITURAS:
1 – KELLER, Timothy; ALSDORF, Katherine Leary. Como integrar fé e trabalho: nossa profissão ao serviço de Deus. SP: Vida Nova, 2014.
2 – JUNIOR, Heber Carlos de Campos. Amando a Deus no mundo: por uma cosmovisão reformada, SP: Fiel, 2019.
3 – GILBERT, Greg; TRAEGER, Sebastian. O evangelho no trabalho: servindo em sua profissão com um novo propósito. SP:Fiel, 2014.

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